A Mulher na Pesca na Baía do Iguape/ Bahia e o uso da História Oral

JERUZA JESUS DO ROSÁRIO*

jeruzarosario@hotmail.com fones: 71-9941-1046/3453-8916

*Aluna do curso de Mestrado em Cultura, Memória e Desenvolvimento Regional pela Universidade do Estado da Bahia – UNEB / Campus V.

 

A Mulher na Pesca na Baía do Iguape/ Bahia e o uso da História Oral

 

RESUMO

 

Este trabalho é fruto das pesquisas iniciadas em Março/2007 sobre o cotidiano da mulher pescadora na reserva extrativista (Resex) marinha Baía do Iguape/Bahia localizada no Recôncavo Sul Baiano.

Muitas mulheres lançaram-se na atividade pesqueira, reconhecidamente masculina, pois, sem escolha, teriam que buscar o sustento de alguma forma.

Utilizo a contribuição de informações acerca da mulher pescadora colhidas em conversas informais e entrevistas gravadas com estas mulheres e pessoas outras ligadas ao seu cotidiano.

A compreensão da realidade social impõe que se teorize sobre os processos de construção de experiências e de significados dentro do espaço, já que uma concepção social da cultura torna-se, a partir daí, ferramenta analítica de primeira hora.

 

PALAVRAS - CHAVE

Mulher pescadora - cotidiano – espaço - cultura

 

ABSTRACT

 

This work is fruit of the initiate researches in march of 2007 on the daily of the fisherwoman in the navy extraction reservation Iguape Bay/Bahia. A lot of women throwed themselves in the fishing activity, which is a recognized masculine job, because, without choice, they would have to look for the sustenance in some way.

I use the contribution of informations concerning the fisherwoman obtained in informal conversations and interviews recorded with these women and another people linked to her daily activity. The understanding of the social reality imposes that it is theorized on the processes of experiences construction and of meant inside of the space, since that one social conception of the culture becomes an immediate analytical tool.

 

KEYWORDS

Fisherwoman - daily lives – space - culture

 

-INTRODUÇÃO

O meu interesse em trabalhar a mulher pescadora teve início a partir dos estudos com manejo de recursos naturais na Baía do Iguape. Por minha formação em Urbanismo pela Universidade do Estado da Bahia/UNEB e pelos estudos continuados na graduação em Geografia, sempre muito fascinada pela temática ambiental, surgiu a possibilidade de pesquisar a figura da trabalhadora do manguezal, tendo em vista que a mulher se faz produtora do seu espaço e de suas histórias a partir de suas vivências, mas que, ao longo do tempo, enfrenta dificuldades no sentido de dar visibilidade ao seu ofício na produção de alimentos tanto para o sustento próprio e de suas famílias, como para abastecimento do mercado de mariscos, já que a pesca é reconhecidamente uma tarefa masculina.

Este artigo é fruto das pesquisas iniciadas em Março/2007 sobre o cotidiano da mulher pescadora na reserva extrativista (Resex) marinha Baía do Iguape/Bahia localizada no Recôncavo Sul Baiano. Está localizada em pleno rio Paraguaçu justamente onde este rio deixa de correr margeado por montanhas, após passar pelas cidades de Cachoeira e São Félix antes de encontrar a sua foz na Baía de Todos os Santos. Em torno da Baía do Iguape esta localizado a sede do município de Maragogipe e as vilas, Santiago do Iguape, São Francisco do Paraguaçu e Nagé.A Baía do Iguape possui aproximadamente 42.000 habitantes que vivem, basicamente, da pesca artesanal, agricultura do fumo e pequenas agriculturas familiares. Quanto à atividade da pesca, registra-se a existência da Colônia de Pescadores de Maragojipe onde, de um universo de aproximadamente 8.000 pescadores, cerca de 3.500 são associados, entre homens e mulheres, sendo mais de 50% do corpo de associados composto por mulheres.

A metodologia que vem sendo aplicada, além de pesquisa bibliográfica, obtenção de informações gerais em órgãos públicos e do reconhecimento de campo, é o uso das técnicas da história oral através de entrevistas com as pescadoras; estas entrevistas são norteadas por um roteiro onde não são feitas pergunta específicas, mas sim, feitas abordagens sobre o seu cotidiano: a vida na pesca, a vida em família, a relação com o espaço, aspectos culturais, entre outras suscitações que vão ocorrendo no decorrer dos trabalhos.

Nesta conversas, informações valiosas vão sendo levantadas a partir, principalmente, das memórias das vivências e saberes dessas mulheres adquiridos ao longo de suas histórias de vida e antepassados.

 

-A MULHER PESCADORA: HISTÓRIAS E MEMÓRIAS

No caso específico das mulheres pescadoras da Baía do Iguape, tem-se exemplos de pessoas ativas, participantes do processo de produção e reprodução social que, ao longo do tempo, para sobreviverem, adequaram-se à necessidade de negociar com situações adversas na necessidade da busca do sustento. Nesta busca, suas vidas foram dando o tom a partir das histórias e memórias que preenchem seus passados. Trago o exemplo de D. Regina, pescadora da Baía do Iguape, nascida no distrito de Baixinha; mulher de 57 anos que em determinada época de sua vida, mudou de Maragojipe para a cidade de Feira de Santana, na tentativa de melhores condições de vida, mas acabou retornando cerca de 5 anos depois. Segundo D. Regina, ela se considera uma pessoa que luta pelo que quer e leva a vida na batalha e que, por isso mesmo, se sente realizada e feliz apesar das dificuldades da lida de ser pescadora.

O cotidiano das pescadoras constitui uma história de resistência e de busca de uma vida melhor para as comunidades em que vivem. A história que se faz perceber a partir das pescadoras ouvidas, se expressa nas lembranças e no conhecimento que possuem sobre a pesca no manguezal repassado de geração em geração. Acredito que isto pode ser pensado conforme a abordagem de Michael Pollak (1992, P. 201): "um femenômeno de projeção ou de identificação com determinado passado, tão forte que podemos falar numa memória quase que herdada."

Estamos impregnados das memórias do que vivemos e do que não vivemos e é a partir de premissas como esta que história oral se desenvolveu, foi retrabalhada e utilizada como tal a partir das décadas de 70 e 80, mas há muito sendo utilizada como mais um modo de se fazer História.

A partir do relatado por D. Benedita, pescadora na qual se percebe os olhos brilharem ao falar sobre o que representa ser pescadora em sua vida, o ofício de ser pescadora, desde moça, representou a possibilidade de ganhar a vida de maneira prazerosa, pois o trabalho que realizava na empresa Suerdieck, fábrica de charutos em qual trabalhou durante a década de 70 em Maragojipe, apesar de ser um dinheiro a mais para as despesas da casa, era garantia somente da carteira de trabalho assinada, do dinheiro certo no final do mês, mas que devia em muito ao ambiente de trabalho em clima de amizade e comunhão encontrado na pesca; vejo que o fato do trabalho na pesca, mesmo que feito de forma individual, desfrutava de momentos partilhados pelas pescadoras no seu cotidiano.

Pollak (1989/3, p. 3) cita Maurice Halbwachs quando este fala da força da memória coletiva, "das funções positivas desempenhadas pela memória comum, a saber, de reforçar a coesão social, não pela coerção, mas pela adesão afetiva ao grupo". Segundo D. Benedita, a esta época, a colônia de pescadores tinha muito pouca representatividade e mulher pescadora não tinha seus direitos trabalhistas salvaguardados; ela ressalta que hoje, apesar de a colônia ainda ter muito o que melhorar, direitos já são uma realidade. Isto fornece indícios de que a mulher pescadora vivencia um momento histórico de tentativa de saída da invisibilidade, colocando em discussão a importância de seu trabalho, da legitimidade e conquista de seus direitos e da necessidade de valorização da mulher trabalhadora do manguezal.

É nas memórias que ideologias vão construindo identidades balisadas por tradições existentes como a pesca. Estas memórias são resgatadas através do trabalho dos grandes escritores, desde sempre, que usaram a oralidade, recurso que precede a escrita como instrumento poderoso pois daí se delineiam o poder da fala, dos quereres e saberes de determinado grupo.

A entrevista com Roquelina, pescadora desde os 10 anos e atual presidente da colônia de pescadores, suscitou possibilidades de verificar como a luta pela sobrevivência constante na vida de pescadora representa dignidade e a afirmação permanente do seu papel de cidadã. É nesta realidade que se constituem ambientes onde os indivíduos são ativos destes processos naturais. Roquelina tem muito clara a consciência de que o seu papel dentro de sua família como mãe representa o fio condutor do modo de viver em seu lar que ela propõe para seus filhos e seu companheiro; ela afirma que vê a mulher pescadora extremamente preparada para conduzir um lar, tendo em vista a labuta diária em administrar as dificuldades diárias da vida no manguezal: o convívio familiar, o crescimento dos filhos, a mãe-pescadora como agente multiplicador de seus saberes e de suas vivências. Percebo que há uma simbiose entre a vida dentro de casa que acaba refletindo o zelo com que trata o manguezal; é como se este e a família representassem fontes de vida que têm impossível dissociação entre si.

Tem-se nesta entrevista, a importância da história registrada de forma oral: traz a possibilidade de perceber o orgulho que parece definir a base de construção de vidas que constituem a dia-a-dia da mulher pescadora.

Ao passo em que entrevisto a trabalhadora do manguezal, experimento o privilégio de ajudar a rememorar o cotidiano destas mulheres que segue imbricado de subjetividade a partir das tantas histórias e memórias com que começo a ter contato nesta minha pesquisa.

 

-O COTIDIANO: CONTADO E RELEMBRADO

Para falar de cotidiano e memórias trazidos pela mulher pescadora da Baía do Iguape, é conveniente verificar alguns pontos abordados na conversa com D. Edna; 56 anos, pescadora desde os 8, também ex-funcionária da Suerdieck, chamada de "máquina" pelas colegas de profissão na pesca por conta de ser considerada uma pescadora muito ágil e rápida. Relata que muitas vezes, sem ter com o que alimentar sua família, teve que contar com a solidariedade dos vizinhos até que conseguisse vender o marisco. Ela conta que no dia-a-dia da pesca, as dificuldades sempre foram grandes principalmente na época em que seus filhos eram pequenos, mas que mesmo assim, nunca se deixou tomar pela aflição e pela tristeza; chama atenção de que na realização de seu trabalho, sempre está em alegria mesmo com a consciência de que a sua profissão, apesar de ser motivo de orgulho, não é valorizada. A alegria da qual D. Edna fala se expressa pelo modo como vai para o seu trabalho, geralmente acompanhada de suas filhas; ela contou que quando estão no mangue, "qualquer carro de som que passe é motivo para cantar e sambar".

A história oral vale-se dos testemunhos que funcionam a partir do momento em que rastreiam a formação da memória coletiva a partir da infância, geralmente, referenciados na família. As lembranças ocorrem com a composição da memória a partir do coletivo, da família.

Desde a década de 70, faz-se clara a necessidade de busca do passado; até por uma questão de contraponto à modernidade imposta, a reconstrução do passado se faz necessária tornando possível revitalizar o papel da memória que é o de ser um elo: a memória, por ser absoluta, consegue uma determinada pureza em relação à história que é relativa por conta de sofrer influências de aspectos variados o que ocasiona um discurso construído.

Sobre a afirmação da figura da mulher na pesca, em entrevista com Roquelina, já citada anteriormente, esta recorda a discriminação sofrida pelo fato de ser pescadora; conta que muitas pescadoras se envergonham quando estão sujas de lama, ou seja, não "chegam perto das visitas quando tão fumegando a peixe". Ela conta que jamais teve problemas quanto a isso pois tem em mente que é uma cidadã que está ali lutando pela sua sobrevivência e dos seus.

Temos aí o exemplo de como a memória funciona na construção da identidade. Através da sua fala, percebo em Roquelina o desejo de impor a sua condição de pescadora mesmo sabendo que o estar "fumegando a peixe" não fosse a forma mais agradável de se apresentar. As memórias do exemplo de dignidade que ela própria representa para si e para sua família, são trazidas com força suficiente a ponto destes pormenores pouco representarem.

O uso da memória nos remete a perceber o mundo não como um só, como reza o império do presente; a importância das vivências e dos saberes, a exemplo das pescadoras da Baía do Iguape, estão sendo negligenciadas pela velocidade dos acontecimentos dos fatos ditados pela forma moderna de viver. Olga Moraes (1988, p. 16) cita Maria Isaura Queiroz, a qual traz que "o relato oral está, pois, na base da obtenção de toda a sorte de informações e antecede a outras técnicas de obtenção e conservação do saber;" Felizmente, as pescadoras ainda conseguem manter seus ritmos da maré, a exemplo de D. Edna que, segundo ela, apesar das aflições, mantêm seu humor cantando e sambando, conseguindo ainda perceber as várias histórias que povoam o Iguape, a exemplo da lenda da Vovó do Mangue, a qual D. Edna jura ser verdadeira.

Na Baía do Iguape, a Vovó do Mangue traz em si, a leitura da relação do cuidado com o meio, ou seja, zelo com as fontes de sustento de vida: o manguezal. A Vovó do Mangue, conforme as histórias contada pela pescadora, é uma senhora que toma conta do mangue e o protege. Vejo que nesta lenda estão implícitos os saberes e o ensino da arte da pesca para os filhos de maneira zelosa; estes saberes são passados de geração a geração a partir de um retorno contínuo aos elementos que estão na memória coletiva. Vansina (1982, p. 157) afirma que "uma sociedade oral reconhece a fala não apenas como um meio de comunicação diária, mas também com um meio de preservação da sabedoria dos ancestrais, a tradição oral." Tem-se aí uma demonstração de como a sociedade explica-se a si própria, construindo e transmitindo as tradições e, por isso, a necessidade de estar atento aos modos de pensar local para daí analisar o que é observado. Aspectos como as tradições que se manifestam na religiosidade, na música ou lendas populares, desvendam-se como fontes de pesquisa singulares.

A História Oral prima pelo poder da palavra; palavra onde pode ser percebida a natureza dos povos, a essência destes e isto, vejo como a maneira mais competente de guardar suas histórias, suas impressões, seus modos de aprendizado de forma mais honesta possível. Nesta pesquisa que norteia-se pela história oral, proponho verificar o cotidiano da mulher pescadora além do que se ouve, do que conta, do que se sabe em senso comum. Memórias são revolvidas e é necessário estar atento para o que as pessoas querem lembrar e o que não querem. Elementos importantes como o trabalho na pesca como motivo de orgulho, a necessidade subjetiva de realizar a arte da pesca da melhor maneira possível e o amor pela profissão, mesmo com consciência da não valorização de seu ofício, por parte das pescadoras, são pontos de investigação muito instigantes.

 

-CONSIDERAÇÕES FINAIS

Nesta pesquisa do cotidiano da mulher pescadora na Baía do Iguape, a partir da metodologia da história oral, é imprescindível a busca de interlocução com quem estou falando.

Por conta de vivermos um período onde se torna difícil manter a riqueza e a profundidade das tradições, das lendas, do artesanal, enfim, dos saberes de um povo frente ao mundo global, onde a tradição oral já não tem tanto peso, é válido ter em mente a necessidade de relativizar as informações obtidas quando estivermos diante das várias realidades e de constatações surpreendedoras, o que é confirmado por Alistair Thomson (1997, p. 52) quando este diz que "alguns historiadores às vezes não levavam em conta as várias camadas da memória individual e a pluralidade das versões sobre o passado fornecidas por diferentes narradores."

Vemos a hipervalorização da documentação escrita; não tiro o mérito, mas o que as pessoas que constituem o universo de determinada pesquisa têm para falar, neste caso, as pescadoras da Baía do Iguape, não ficam devendo em nada no que tange ao seu valor, até porquê, as histórias no momento em que são contadas pelas pessoas que as vivenciaram, ainda conseguem manter-se livre de interpretações futuras.

Em entrevista com as pecadoras do Iguape, percebo a boa vontade e a quantidade de histórias que estas pessoas têm para contar, constituindo um fluir contínuo de possibilidades de investigações ricas sobre os sujeitos de pesquisa em questão.

A escrita funciona como a fotografia do saber, assim como as artes em geral: música, dança, cinema, teatro, entre outras, e é nela que funciona a principal parte do trabalho em pesquisa, pois é com este instrumento que poderemos fazer de nossos escritos, instrumentos de constatações valiosas para a sociedade em que vivemos, mas para isso, devemos encarar esta tarefa da maneira mais honesta possível, pois estaremos, permeando inúmeras memórias, histórias de vidas que nos são abertas, muitas vezes, sem alguma pretensão e que nos chegarão, em muitos casos, na forma de fatos que por nós, serão interpretados, bem ou não e é onde temos a nossa maior responsabilidade.

A atividade do pesquisador que se utiliza de história oral deve ter a sensibilidade em perceber a importância que constitui a recuperação das memórias pois, se não, estas morrem. Como pesquisadora, proponho o desenvolvimento da arte do escutar, da paciência e enxergar a mulher pescadora de maneira não homogeneizadora, pois é dali, das conversas com o universo destas mulheres, cada uma, um pensamento a cada jeito, à maneira como podem ser, de onde flui a essência e a honestidade deste estudo.

 

-REFERÊNCIAS

 

-ORAIS

Benedita Souza de Oliveira, 59 anos. Pecadora. Entrevista cedida a Jeruza Rosário em 05/07/2007.

Edna da Conceição dos Santos, 59 anos. Pecadora. Entrevista cedida a Jeruza Rosário em 05/07/2007.

Regina Célia dos Santos, 57 anos. Pecadora. Entrevista cedida a Jeruza Rosário em 05/07/2007.

Roquelina Souza de Almeida, 43 anos. Pecadora. Entrevista cedida a Jeruza Rosário em 06/07/2007.

 

-BIBLIOGRÁFICAS

QUEIROZ, Maria Isaura Pereira de. Relatos orais: do "indizível ao dizível; In. SIMSON, Olga Moraes von (org.). Experimentos com histórias de vida. São Paulo: Vértice/ Editora Revista dos Tribunais, 1988. P.16.

POLLAK, Michael. Memória e identidade social. In: Estudos Históricos. Rio de Janeiro, vol.5, nº 10, CPDOC, 1992.

POLLAK, Michael. Memória, esquecimento, silêncio. Estudos Históricos, CPDOC/FGV, São Paulo, Editora Revista dos Tribunais, Vértice, 1989/3. P. 3.

THOMSON, Alistair. Recompondo a memória: questões sobre a relação entre a História Oral e as memórias. Ética e História Oral. Projeto História nº 15, Revista do programa de Estudos Pós-Graduados em História e do Departamento de História – PUC/SP. São Paulo, Abril de 1997.

VANSINA, Jan. A tradição oral e sua metodologia. KI-ZERBO, J. (org.) História Geral da África. Metodologia e pré-história. Vol. I, São Paulo: Ática/Unesco, 1982. P. 157.

quinta 30 agosto 2007 10:03


A Mulher Pescadora na Baía do Iguape: Espaço, Cultura e Saberes

JERUZA JESUS DO ROSÁRIO*

jeruzarosario@hotmail.com fones: 71-9941-1046/3453-8916

*Aluna do curso de Mestrado em Cultura, Memória e Desenvolvimento Regional pela Universidade do Estado da Bahia – UNEB / Campus V.

 

MULHER PESCADORA NA BAÍA DO IGUAPE/BAHIA

 

RESUMO

 

Este trabalho é fruto das pesquisas iniciadas em Março/2007 sobre o cotidiano da mulher pescadora na reserva extrativista (Resex) marinha Baía do Iguape/Bahia localizada no Recôncavo Sul Baiano.

Muitas mulheres lançaram-se na atividade pesqueira, reconhecidamente masculina, pois, sem escolha, teriam que buscar o sustento de alguma forma.

Utilizo a contribuição de informações acerca da mulher pescadora colhidas em conversas informais e entrevistas gravadas com estas mulheres e pessoas outras ligadas ao seu cotidiano.

A compreensão da realidade social impõe que se teorize sobre os processos de construção de experiências e de significados dentro do espaço, já que uma concepção social da cultura torna-se, a partir daí, ferramenta analítica de primeira hora.

 

PALAVRAS - CHAVE

Mulher pescadora - cotidiano – espaço - cultura

 

THE FISHERWOMAN IN IGUAPE BAY /BAHIA

ABSTRACT

 

This work is fruit of the initiate researches in march of 2007 on the daily of the fisherwoman in the navy extraction reservation Iguape Bay/Bahia. A lot of women throwed themselves in the fishing activity, which is a recognized masculine job, because, without choice, they would have to look for the sustenance in some way.

I use the contribution of informations concerning the fisherwoman obtained in informal conversations and interviews recorded with these women and another people linked to her daily activity. The understanding of the social reality imposes that it is theorized on the processes of experiences construction and of meant inside of the space, since that one social conception of the culture becomes an immediate analytical tool.

 

KEYWORDS

Fisherwoman - daily lives – space - culture

 

- INTRODUÇÃO

Este artigo é fruto das pesquisas iniciadas em Março/2007 sobre o cotidiano da mulher pescadora na reserva extrativista (Resex) marinha Baía do Iguape/Bahia localizada no Recôncavo Sul Baiano. Está localizada em pleno rio Paraguaçu justamente onde este rio deixa de correr margeado por montanhas, após passar pelas cidades de Cachoeira e São Félix antes de encontrar a sua foz na Baía de Todos os Santos. Em torno da Baía do Iguape esta localizado a sede do município de Maragogipe e as vilas, Santiago do Iguape, São Francisco do Paraguaçu e Nagé.

A Baía do Iguape possui aproximadamente 42.000 habitantes que vivem, basicamente, da pesca artesanal, agricultura do fumo e pequenas agriculturas familiares. Quanto à atividade da pesca, registra-se a existência da Colônia de Pescadores de Maragojipe onde são associados cerca de 3.500 pescadores, entre homens e mulheres, sendo mais de 50% do corpo de associados composto por mulheres.

A Resex tem a finalidade de dar suporte à população na extração da fauna marinha de modo sustentado sendo uma iniciativa do governo federal em conjunto com o IBAMA. Esta Resex configura-se como uma das formas de ação e uso coletivo que objetiva o uso sustentável de uma área, mediante a regulamentação do uso dos recursos naturais e dos comportamentos a serem seguidos pelos extrativistas. O artigo traz a preocupação com o comportamento espacial das manifestações culturais como: religião, crenças, rituais, artes, forma de trabalho, enfim, tudo que resulta da criação ou transformação do homem sobre a natureza ou das relações com o espaço, levando em conta a perspectiva de que a subjetividade existe e é com base nela por onde deve-se orientar os trabalhos acadêmicos.

Para a realização deste artigo, utilizo a contribuição de informações acerca da mulher pescadora colhidas em conversas informais e entrevistas gravadas com estas mulheres e pessoas outras ligadas ao seu cotidiano; estas fontes estão sendo utilizadas de modo atento, tendo em vista que, nem sempre, devemos utilizá-las como comprovação de constatações, e sim, como instrumento constitutivo do raciocínio que dará forma à pesquisa.

A compreensão da realidade social impõe que se teorize sobre os processos de construção de experiências e de significados, já que uma concepção social da cultura torna-se, a partir daí, ferramenta analítica de primeira hora.

Toma-se, também, a importância da acentuação da leitura do espaço em paralelo com a história dessas mulheres a fim de apreender o modo como elas vivenciam, definem e redefinem o seu espaço na Baía do Iguape.

 

- A MULHER PESCADORA E O COTIDIANO

A natureza e o espaço na Baía do Iguape socialmente produzido, do qual a mulher pescadora é parte integrante, constituem o ambiente geográfico nesta localidade. Este, contudo, não é vivenciado nem percebido do mesmo modo pelos diversos grupos sociais: renda, sexo, idade, as práticas espaciais associadas ao trabalho, crenças, mitos, valores e utopias. A percepção do ambiente tem uma base eminentemente cultural.

No caso específico das mulheres pescadoras da Baía do Iguape, tem-se exemplos de pessoas ativas participantes do processo de produção e reprodução social que, ao longo da história, para sobreviverem, adequaram-se à necessidade de negociar com situações adversas na necessidade da busca do sustento. É bom trazer o exemplo de D. Regina, pescadora da Baía o Iguape, nascida no distrito de Baixinha; mulher de 57 anos que em determinada época de sua vida, mudou de Maragojipe para a cidade de Feira de Santana, na tentativa de melhores condições de sobrevivência, mas acabou retornando cerca de 5 anos depois. Segundo D. Regina, ela se considera uma pessoa que luta pelo que quer e leva a vida na batalha e que, por isso mesmo, se sente realizada e feliz apesar das dificuldades da lida de ser pescadora.

A exemplo de D. Regina, muitas outras mulheres lançaram-se na pesca, atividade reconhecidamente masculina, pois, sem escolha, teriam que alimentar seus filhos, suas famílias de alguma forma; disto, desenvolveu-se a forma de trabalho pesqueiro feminino e, conseqüentemente, espaço para a construção de alternativas de luta já que, cada vez mais, um contingente cada vez maior de mulheres constituem um grupo que cresce em busca de direitos igualitários, socialmente justos, onde a cultura vai se delineando. A exemplo desta realidade, vale analisar o trecho de Marilena Chauí a seguir:

 

"Ora, seres e objetos culturais nunca são dados, são postos por práticas sociais e históricas determinadas, por formas de sociabilidade, da relação intersubjetiva, grupal, de classe, da relação como o visível e o invisível, com o tempo e o espaço, com o possível e o impossível, com o necessário e o contingente. Para que algo seja isto ou aquilo é preciso que seja assim posto ou constituído pelas práticas sociais."

 

O cotidiano das pescadoras constitui uma história de resistência e de busca de uma vida melhor para as comunidades em que vivem. A história que se faz perceber a partir das pescadoras ouvidas, se expressa nas lembranças e no conhecimento que possuem sobre a pesca no manguezal repassado de geração em geração, como o relatado por D. Benedita, pescadora na qual se percebe os olhos brilharem ao falar sobre o que representa ser pescadora em sua vida. Segundo ela, o ofício de ser pescadora, desde moça, foi a possibilidade de ganhar a vida de maneira prazerosa, pois o trabalho que realizava na empresa Suerdieck, fábrica de charutos em qual trabalhou durante a década de 70 em Maragojipe, apesar de representar um dinheiro a mais para as despesas da casa, era garantia somente da carteira de trabalho assinada e do dinheiro certo no final do mês; a esta época, a colônia de pescadores tinha muito pouca representatividade e mulher pescadora não tinha seus direitos trabalhistas salvaguardados; ela ressalta que hoje, apesar de a colônia ainda ter muito o que melhorar, direitos já são uma realidade. Isto fornece indícios de que a mulher pescadora vivencia um momento histórico de tentativa de saída da invisibilidade, colocando em discussão a importância de seu trabalho, da legitimidade e conquista de seus direitos e da necessidade de valorização da mulher trabalhadora do manguezal.

Assiste-se hoje a diversas tendências e debates no Brasil e no mundo que, de um lado, afirmam a diversidade feminina com as suas várias possibilidades de participação e construção social e propõem uma abordagem específica para a crise ambiental, destacando a conexão especial das mulheres com a natureza, e de outro, criticam a referência a essa conexão como um possível reforço à exclusão das mulheres em repetição ao processo que se arrasta até hoje. Conflitos ideológicos à parte, é interessante ressaltar a importância da busca da diversidade, ou seja, prestar atenção no cotidiano desta mulher para que se perceba o diferente, o que se consegue a partir do olhar plural sobre o que se está pesquisando, o que, ao mesmo tempo, enriquece a produção do conhecimento pois diminui as chances de conjecturas unilaterais: verificar a multiplicidade, no caso desta pesquisa que se desenvolve, da pluraridade de histórias e pensares da mulher trabalhadora no manguezal da Baía do Iguape através de seu cotidiano, tendo em vista que o cotidiano é individual e não soma de individualidades.

Natureza e cultura estão colocadas tendo por referência os processos naturais nos quais os seres humanos se inserem, dos quais retiram o seu conhecimento e sua vida e as construções culturais humanas derivadas do conhecimento e do saber, se apóiam na realidade natural. A entrevista com Roquelina, pescadora desde os 10 anos e atual presidente da colônia de pescadores, suscitou possibilidades de verificar como a luta pela sobrevivência constante na vida de pescadora representa dignidade e a afirmação permanente do seu papel de cidadã. É nesta realidade que se constituem ambientes onde os indivíduos são ativos destes processos naturais. Roquelina tem muito clara a consciência de que o seu papel dentro de sua família como mãe representa o fio condutor da estrutura familiar que ela propõe para seus filhos e seu companheiro; ela afirma que uma mulher pescadora é extremamente preparada para conduzir a vida doméstica, tendo em vista a labuta diária em administrar as dificuldades diárias e a vida no manguezal; percebo que é uma simbiose entre a vida dentro de casa que acaba refletindo o zelo com que trata o manguezal; é como se este e a família representassem fontes de vida que têm impossível dissociação entre si.

 

- COTIDIANO E CULTURA

Para falar de cotidiano e a cultura trazida pela mulher pescadora da Baía do Iguape, é conveniente trazer alguns pontos abordados na conversa com D. Edna; 56 anos, pescadora desde os 8, também ex-funcionária da Suerdieck, chamada de "máquina" pelas colegas de profissão na pesca por conta de ser considerada uma pescadora muito ágil e rápida. Relata que muitas vezes, sem ter com o que alimentar sua família, teve que contar com a solidariedade dos vizinhos até que conseguisse vender o marisco. Ela conta que no dia-a-dia da pesca, as dificuldades sempre foram grandes principalmente na época em que seus filhos eram pequenos, mas que mesmo assim, nunca se deixou tomar pela aflição e pela tristeza; chama atenção de que na realização de seu trabalho, sempre está em alegria mesmo com a consciência de que a sua profissão, apesar de ser motivo de orgulho, não é valorizada.

A alegria da qual D. Edna fala se expressa pelo modo como vai para o seu trabalho, geralmente acompanhada de suas filhas; ela contou que quando estão no mangue, qualquer carro de som que passe é motivo para cantar e sambar.

Para a otimização da utilização deste tipo de informação obtida com as mulheres pescadoras, tem-se a contribuição da geografia cultural que é trazida para este estudo por conta desta considerar os sentimentos e as idéias de um grupo ou povo sobre o espaço a partir da experiência vivida. É uma geografia do lugar. A relevância é estabelecida à medida que as referências culturais determinem as ações da sociedade sobre a natureza. D. Edna conta que jamais sai para buscar o seu marisco sem oferecer um charuto ou um pouco de fumo para a Vovó do Mangue, lenda famosa na Baía do Iguape sobre uma senhora que, segundo a história contada, toma conta do mangue e o protege. O contato com a riqueza da região, aguçado pela vivência do mundo simbólico das pessoas ouvidas, leituras sobre as festas e comemorações religiosas, direciona a pesquisa, ainda mais, para os aspectos culturais marcantes desta população. Isto é refletido na incorporação, ao trabalho, do levantamento das histórias do cotidiano da mulher pescadora em seu espaço de vivências, o que evidencia que espaço e tempo não devem ser separados jamais ou, caso contrário, não se consegue expressar, claramente, pela linguagem o que se quiser dizer. Com relação ao seu trabalho no manguezal, D. Edna faz a seguinte análise: "se eu tiro de onde não botei, eu tenho que cuidar e pedir licença".

Esta cultura prediz um desenvolvimento íntimo de negociação e produção com o mundo em paralelo com o materialismo a partir da realidade produzida pelas pessoas; os indivíduos produzem cultura enquanto produzem a si próprios a partir das várias maneiras de viver, amar, escrever, festejar, enfim, registrar, conscientemente ou não, a sua existência no mundo. As pescadoras se reconhecem como agentes construtores e modificadores de seu espaço na cultura que se desenha. Uma teoria na perspectiva social da cultura sustenta-se em um outro requerimento de partida: supõe que à cultura seja conferida alguma possibilidade de autonomia. Vale dizer, que as relações sociais possam ser investigadas a partir da estrutura e significados internos à própria cultura.

As discussões sobre cultura vêm desestabilizando os paradigmas. Anteriormente, os conceitos estruturalistas se pretendiam universais, atualmente, certamente pelo advento da globalização e da pós-modernidade, tem-se o convite ao mergulho nas particularidades o que propõe um momento criativo na produção do conhecimento de rompimento com a mesmice o que possibilita perceber as diferenciações que se intercruzam.

Ressalta-se aqui a necessidade de sensibilidade para ler o espaço, já que a mulher pescadora tem no seu cotidiano o desenvolvimento de espaços legíveis que expressam a cultura em seus diversos aspectos, possuindo uma faceta funcional e outra simbólica, ou seja, neste caso da Vovó do Mangue, a lenda funciona como um instrumento de defesa do próprio manguezal e como personagem do imaginário da população da Baía do Iguape.

A pesquisa também traz a contribuição do Ecofeminismo, movimento social surgido no início dos anos 90 do século XX, cujo ponto á a associação da mulher à natureza, principalmente, no que diz respeito à sustentabilidade, tendo em vista que o presente estudo desenvolve-se dentro de uma reserva extrativista marinha. O Ecofeminismo sugere o reconhecimento de que, apesar de o dualismo natureza-cultura ser um produto da cultura, podemos, conscientemente, escolher a aceitação da conexão mulher-natureza, participando da cultura, reconhecendo que a desvalorização da doação da vida traz resquícios profundos para a ecologia e as mulheres.

A mulher pescadora vivencia um momento histórico de tentativa de saída da inivisibilidade, colocando em discussão a importância do seu trabalho e a necessidade de valorização da mulher trabalhadora do manguezal. Aliado a isto, também vem à tona o problema da destruição dos mangues que ameaça a vida nas comunidades, pois contribui com a redução dos estoques naturais de pesca e o aumento da pobreza, caracterizando um cenário do ponto de vista cultural, social, econômico e ambiental.

- COTIDIANO E ESPAÇO

O cenário em que se realiza esta pesquisa é a Resex Baía do Iguape que destina-se, principalmente, à proteção dos manguezais; tem a extensão de 8,8 mil hectares, 35% formados por manguezais (2,8 mil hectares) e o restante de águas mistas (doce e salgada) ligando o município de Maragojipe a Cachoeira.

Nas entrevistas com as pescadoras, procurei investigar sobre a forma como se dá o seu espaço, os dramas diários enfrentados, o modo de morar, de cuidar da casa, de se alimentar, o trato com a família, e pude perceber a unidade constituída entre o espaço do lar e o manguezal de onde a mulher retira o seu sustento. Tenho claro que o espaço onde ela cuida e mantém sua família, a sua casa, não se separa do espaço onde realiza a cata do marisco; sua casa vai da porta de sua casa até o quintal com extensão ao mangue.

Já sobre afirmação da figura da mulher na pesca, em entrevista com Roquelina, já citada anteriormente, esta recorda a discriminação sofrida pelo fato de ser pescadora; conta que muitas pescadoras se envergonham quando estão sujas de lama, ou seja, não "chegam perto das visitas quando tão fumegando a peixe". Ela conta que jamais teve problemas quanto a isso pois tem em mente que é uma cidadã que está ali lutando pela sua sobrevivência e dos seus.

Partindo disso, vejo que a percepção do ambiente tem fortes raízes culturais, o que possibilita uma melhor compreensão do tempo x espaço, levando em conta as vidas que experimentaram/experimentam a rotina na pesca e que são tão vítimas como agentes de suas histórias pois se apropriam e transformam o espaço aos seus modos.

No intuito de a pesquisa não ter um tom único ouvi também o Sr. Lourival, pescador de 66 anos, casado há 51 com uma pescadora. Ele conta que vê a mulher pescadora como "uma pessoa que é independente, que gosta da arte (da pesca) para trabalhar e para sobreviver". Creio ser importante ouvir homens também, tendo em vista que uma visão crítica deverá insistir para que as mulheres sejam tratadas exatamente como completos seres humanos e como partes completas da cultura como eles próprios e mostrar que ambos devem mudar suas concepções dualizadas da identidade humana e desenvolver uma cultura alternativa, a qual reconheça a ligação histórica da identidade humana com a cultura, passando a aceitar sua identidade também com a natureza.

Nesta pesquisa, assume-se o compromisso de vigilância em enxergar a grande gama de diversidade, dentre as mulheres na Baía do Iguape, apesar da homogeneidade tentadora que se apresenta frente à figura das pescadoras: perceber a Baía do Iguape nas heterogeneidades que compõem a homogeneidade; superação do velho e obsoleto feminismo da igualdade, bem como das correntes que pretenderam uma inversão da dominação, é necessária porque estas não criticaram a construção dualística de mulher/natureza e cultura/natureza. As discussões levantadas deverão analisar as comunidades em estudo a partir das diferenças. É de extrema importância estar atento para que a utilização das fontes se dê de maneira onde estas façam parte da narrativa não só para comprovar, como já comentado, mas, também, contribuir nas reflexões no sentido em que se possa entender os formatos, os falares e as atitudes como são construídas a partir da análise textual do que for coletado.

A partir de Harvey, quando este alerta para a tendência em encarar o espaço como "atributo objetivo das coisas que pode ser medido e, portanto, apreendido", julgo necessário que o acompanhamento da trajetória espacial da porção onde se descortina o cotidiano da mulher pescadora; deixar o espaço aparecer como fruto das realidades experimentadas na vida pelas pessoas envolvidas e descobrir a forma como esta mulher pensa o seu espaço já que este é fruto do que se vive.

Mais uma vez, em conversa com Roquelina, muito interessante foi o momento em que esta conta, em tom de alívio, que acreditava que a sua filha mais nova "não sabia fazer nada de pesca" e, de repente, descobre que sabia "cavar mapé". Diante disto, vejo o quão importante é a passagem dos saberes e a possibilidade de dar continuidade ao ofício pesqueiro a partir de seus filhos sem estes terem que, necessariamente, buscar novas alternativas; estes saberes simbolizam o fluir da vida que acontece mesmo diante as dificuldades e que oferecem resistência aos tentáculos das tentativas de vida melhor em outros lugares distante da vida de pescadora.

Essas mulheres estão buscando construir seus próprios rumos e saídas para garantir uma vida melhor para as atuais e futuras gerações e é a partir desta busca que trago, a partir da leitura dos textos durante a discilpina, Milton Santos quando este diz: "sabemos também que os eventos apagam o saber já constituído, exigindo novos saberes. (...) depende cada vez menos da experiência e cada vez mais da descoberta."

É estranho uma afirmação como esta, desde quando a linha desta pesquisa norteia-se na crença na negociação entre as forças de resistência e do chamado triunfo da globalização no trecho destacado de Hall que segue este parágrafo. A despeito da globalização, já que se trata de uma pesquisa em torno da mulher produtora que constitui também o mundo capitalista, em suas múltiplas facetas, não se verifica a uniformização do planeta. Ao contrário, diferenças de natureza cultural têm se acentuado, levando mesmo a se minimizar a idéia de que a organização espacial seja inteligível apenas com base nos processos de produção, o que pode ser percebido no trecho de Stuart Hall a seguir:

 

"a globalização não parece estar produzindo nem o triunfo do "global" nem a persistência, em sua velha forma nacionalista, do "local". Os deslocamentos ou os desvios da globalização mostram-se, afinal, mais variados e mais contraditórios do que sugerem seus protagonistas ou seus oponentes."

 

Como matriz cultural, o espaço da mulher pescadora da Baía do Iguape, a sua casa, o manguezal, o modo como se comporta durante a pesca, através de muitos de seus elementos, serve como mediação na transmissão de conhecimentos, valores ou símbolos, contribuindo para transferir de uma geração a outra, o saber, crenças, sonhos a atitudes sócias. Estes muitos elementos jamais poderão ser competentemente analisados em determinado estudo caso não lhe seja conferida a necessária singeleza e astúcia analítica o que Milton Santos aborda da seguinte maneira:

 

" Uma dada situação não pode ser plenamente apreendida se, a pretexto de contemplarmos sua objetividade, deixamos de considerar as relações intersubjetivas que a caracterizam."

 

 

- CONSIDERAÇÕES FINAIS

O momento criativo é de rompimento com a pasmaceira da falta de originalidade. O espaço transformado e vivenciado pelas pescadoras caracteriza-se por conter simbolismos que derivam de valores culturais que ali se acham enraizados e que existem na medida em que são usados. O espaço deve ser analisado de vários ângulos para que se tenha uma visão inteira, totalizadora. A leitura do espaço ganha importância a partir da infinita quantidade de possibilidades que se apresentam. O olhar deve ser treinado sobre o espaço para que se consiga perceber a riqueza de seus detalhes, de suas pistas, de seus pormenores. A leitura dos textos trabalhados na disciplina Cultura e Região serviram bem como alerta para as várias realidades brasileiras que constituem, através da cultura e do espaço, campos de luta.

É necessário aos estudiosos ampliarem a sua contribuição para a compreensão da sociedade brasileira através das diversas facetas da cultura em suas dimensões espaciais a exemplo da cultura popular em suas múltiplas manifestações e variação espacial, buscando o que está "escapolindo", ou seja, encontrar pistas de fatos que estejam fugindo à regra do que se pensa comumente para conseguir atingir o heterogêneo e é o que se tenta fazer acerca deste estudo do cotidiano da mulher pescadora na Baía do Iguape.

As localidades pesquisadas, Maragojipe, Nagé, Coqueiros e São Roque do Paraguaçu, distritos integrantes da Baía do Iguape, devem ser pensadas como partes do Brasil, e este ser pensado como tal, não podendo perder o elo com o todo, a visão macro. Lembrar de perceber as peculiaridades, ou seja, não enxergar somente em único plano, pois toda a produção existente serve e muito, mas novos olhares são necessários para a diversidade do mundo. Os temas da geografia cultural fornecem uma moldura para a compreensão dos elementos culturais à geografia mundial. A explicação do presente, porém, só é possível através do entendimento de algo do passado. A geografia do mundo está mudando continuamente e a moderna geografia cultural inclui elementos da geografia do passado, bem como elementos das forças de mudança que criaram o mundo atual.

Os valores acabaram concebidos como generalizações de comportamentos atuais antes das derivações dos processos de simbolismo e significação que deveriam estar na raiz desses mesmos comportamentos e assim serem analisados.

Interpretar os fenômenos da vida social, neste tipo de abordagem, é compreender a "experiência" através da qual o indivíduo, neste caso a mulher pescadora, constrói a sua vida interior e se capacita a interpretar a de outrem na descoberta dos significados, na interpretação do sentido interno e subjetivo das estruturas culturais que se espraiam nas vivências na Baía do Iguape.

 

- REFERÊNCIAS

-ORAIS:

Benedita Souza de Oliveira, 59 anos. Pecadora. Entrevista cedida a Jeruza Rosário em 05/07/2007.

Edna da Conceição dos Santos, 59 anos. Pecadora. Entrevista cedida a Jeruza Rosário em 05/07/2007.

Lourival Santos, 66 anos. Pecador. Entrevista cedida a Jeruza Rosário em 06/07/2007.

Regina Célia dos Santos, 57 anos. Pecadora. Entrevista cedida a Jeruza Rosário em 05/07/2007.

Roquelina Souza de Almeida, 43 anos. Pecadora. Entrevista cedida a Jeruza Rosário em 06/07/2007.

 

-BIBLIOGRÁFICAS:

CHAUÍ, Marilena. Conformismo e Resistência: aspectos da cultura popular no Brasil. 5. ed. São Paulo: Brasiliense, 1993.

HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Tradução: Tomaz Tadeu da Silva, Guaracira Lopes Louro. 4ª Ed. Rio de Janeiro: DP&A. 2000.

HARVEY, David. Condição Pós-moderna. Tradução: Adail Ubirajara Sobral e Maria Stela Gonçalves, São Paulo: Edições Loyola, 1993.

ISNARD, Hildebert. O Espaço Geográfico. Coimbra, Almedina, 1982.

DI CIOMMO, Regina Célia. Relações de gênero, meio ambiente e a teoria da complexidade. Revista de Estudos Feministas, Jul./Dez. 2003, vol.11, no.2, p.423-443.

PLUMWOOD, Val. Feminism and Ecofeminism: Beyond the Dualistic Assumptions of Women, Men, and Nature. Feminism and Ecology. Society and Nature, Littleton: Agis, v.2, n.º1, 1993

SANTOS, Milton. A Natureza do Espaço: técnica e tempo/razão e emoção. São Paulo: Ed. Hucitec, 1997.

quinta 30 agosto 2007 09:56



Abrir a barra
Fechar a barra

Precisa estar conectado para enviar uma mensagem para geosuigeneris

Precisa estar conectado para adicionar geosuigeneris para os seus amigos

 
Criar um blog